Manaus — O estado do Amazonas enfrenta um dos piores cenários de queimadas dos últimos anos, com focos de incêndio se alastrando por áreas de difícil acesso e a qualidade do ar na capital atingindo níveis críticos. Em meio à emergência, o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), coronel Orleilso Muniz, revelou na sexta-feira (9) que o Governo Federal negou um pedido de apoio aéreo feito em setembro para o combate aos incêndios florestais.

Segundo o coronel, a solicitação previa a disponibilização de quatro aeronaves, essenciais para alcançar focos de fogo em regiões remotas onde o deslocamento terrestre é inviável. "Nós já tivemos um retorno negativo, de que não seria possível apoiar. Reforço e apelo, mais uma vez, que o Estado do Amazonas precisa somar esforços com o governo federal para fazer um enfrentamento qualificado", declarou Muniz durante entrevista à Rede Amazônica.

O comandante destacou que a ausência de reforço aéreo compromete diretamente a capacidade operacional das equipes. Em determinadas localidades, os bombeiros precisam percorrer longas distâncias a pé até alcançar os focos de incêndio. Muniz também revelou que pedidos semelhantes foram feitos em 2024, durante outro período crítico, e igualmente não foram atendidos.

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A versão do Governo Federal

A alegação foi rebatida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que o governo Lula disponibilizou ao estado, por meio do Fundo Amazônia, R$ 45 milhões para investimentos em combate a incêndios e desmatamento.

Além disso, Araújo confirmou que quatro aviões de combate a queimadas chegariam ao Amazonas neste sábado (10), disponibilizados pelo Ibama ao governo estadual. "O governo federal tem ajudado, sim, o governo do estado, inclusive com o envio de R$ 45 milhões para contratação de brigadistas, aquisição de equipamentos, viaturas e aeronaves", pontuou o superintendente.

Em nota divulgada na noite de sexta-feira, o MMA detalhou que o pedido de apoio do governo estadual foi recebido pelo Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal) em 23 de setembro. A partir da solicitação, foram acionados combatentes do programa Respad e uma aeronave do Projeto Pegasus. O ministério afirmou, porém, que em 30 de setembro o Governo do Amazonas comunicou que não precisava mais do apoio do Respad, após chuvas contribuírem para o controle dos focos de incêndio.

O Governo Federal anunciou ainda que disponibilizará seis aeronaves — quatro aviões Air Tractor para lançamento de água e dois helicópteros — e 290 brigadistas para reforçar o combate aos incêndios no estado. O Ibama informou que já extinguiu 229 incêndios no Amazonas desde o início da temporada e continua atuando em outros 20 focos ativos.

Repercussão política

A controvérsia ganhou contornos políticos em meio ao período eleitoral. O superintendente do Ibama no Amazonas é filiado ao PT, e há temor de que a crise das queimadas respingue na campanha do presidente Lula à reeleição. O senador Omar Aziz (PSD-AM) afirmou ter destinado R$ 15 milhões para a compra de uma aeronave de combate a incêndios, mas os recursos não teriam sido executados pelo governo estadual.

Enquanto isso, o Governo do Amazonas contratou uma aeronave por conta própria para reforçar as operações. O equipamento iniciou as atividades na quinta-feira (8), na região do Distrito Industrial, em Manaus, e também foi mobilizado para atender ocorrências em Iranduba, na Região Metropolitana.

Contexto

O Amazonas vive uma situação de emergência ambiental que se agrava a cada ano. A combinação de seca severa, desmatamento e condições climáticas extremas tem intensificado os incêndios florestais, que por sua vez degradam ainda mais a qualidade do ar e afetam a saúde da população. Em Manaus, a fumaça proveniente das queimadas tem sido uma constante, transformando o céu da capital em um cenário cinzento e irrespirável.

A disputa entre os governos estadual e federal sobre quem é responsável por quê — e quem falhou em agir — reflete a complexidade da governança ambiental no Brasil, onde as competências são compartilhadas entre os entes federativos. Enquanto isso, o fogo continua a consumir a maior floresta tropical do planeta, e as populações locais seguem sofrendo as consequências diretas da inação e da burocracia.

O que resta saber é se as aeronaves prometidas chegarão a tempo de fazer a diferença — e se a coordenação entre os órgãos finalmente funcionará antes que a próxima temporada de queimadas se inicie.