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Os primeiros meses da nova gestão já haviam acendido o alerta: ruas esburacadas e tensões políticas nos bastidores. Mas o cenário que se descortina é ainda mais profundo e preocupante. O mais recente Ranking do Saneamento 2026, divulgado pelo Instituto Trata Brasil, coloca Várzea Grande na 97ª posição entre as 100 maiores cidades do país .
Enquanto isso, a relação institucional entre Executivo e Legislativo segue desgastada. O vice-prefeito Tião da Zaeli declarou publicamente que "não tem espaço na gestão" e que se sente um "mero coadjuvante", afirmando que o acordo firmado durante a campanha não foi cumprido pela prefeita Flávia Moretti . A principal tensão envolve o Departamento de Água e Esgoto (DAE-VG), área que politicamente ficou ligada ao vice .
Os números do saneamento escancaram a gravidade da situação. Várzea Grande investe apenas R$ 47,40 por habitante ao ano** em saneamento, valor que representa **menos de 20% dos R$ 225 estipulados pelo Plano Nacional de Saneamento (PLANSAB) para a universalização dos serviços .
O descaso reflete diretamente na qualidade de vida da população. O município consegue coletar apenas 32,87% do esgoto produzido. No tratamento dos dejetos, o índice é ainda mais alarmante, chegando a apenas 22,23% . Somado a isso, o desperdício de água tratada é crítico, com 55,27% da produção perdida em vazamentos e ligações clandestinas antes de chegar às torneiras .
Para se ter uma ideia do contraste, a vizinha Cuiabá foi apontada como a capital brasileira que mais investiu em saneamento proporcionalmente à sua população entre 2020 e 2024, com um aporte médio de R$ 349,98 por habitante — um investimento sete vezes maior que o de Várzea Grande . A capital foi a única do país a superar a meta de excelência do PLANSAB .
A disparidade coloca a gestão de Várzea Grande sob forte pressão. O município integra o seleto grupo dos quatro piores do Brasil em saneamento básico, ao lado de Santarém (PA), Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC) .
Enquanto a população convive historicamente com a falta de água e a ausência de saneamento, as despesas devem aumentar. A Agência de Regulação dos Serviços Públicos (Ager-MT) recomendou um reajuste de 24,33% nas tarifas de água e esgoto do DAE-VG . O reajuste considera a variação do IPCA e corrige perdas acumuladas desde a última definição de tarifas, em 2019 . A decisão final sobre a aplicação do aumento agora depende exclusivamente de um decreto da prefeita Flávia Moretti .
Diante de um cenário tão crítico, a pergunta que não quer calar é: onde está a gestão? Enquanto a administração municipal parece mais empenhada em alimentar tensões institucionais com o vice e promover mudanças na estrutura administrativa , a cidade segue entre as piores do país em um dos indicadores mais fundamentais de qualidade de vida.
O estudo do Trata Brasil reforça que o saneamento básico não é apenas uma questão de obra, mas de desenvolvimento. Sem investimentos consistentes, cidades continuam presas a ciclos de doença, baixa produtividade e desigualdade . A universalização do saneamento básico no Brasil reduziria drasticamente as internações por doenças relacionadas à falta de infraestrutura .
Enquanto as lideranças políticas se digladiam ou se omitem, o cidadão varzeagrandense permanece refém de um sistema que lhe nega o direito mais básico: o acesso à água tratada e à coleta de esgoto. É hora de parar de empurrar o problema com a barriga e de colocar as diferenças políticas em segundo plano. A população não pode mais esperar. O caos nas ruas é visível, mas o caos debaixo delas — no saneamento — é ainda mais perigoso e letal.
Nota sobre a apuração
Todos os dados utilizados nesta publicação foram extraídos de fontes oficiais e veículos de imprensa com credibilidade, publicados entre março de 2025 e março de 2026. As informações sobre saneamento são provenientes do Instituto Trata Brasil, que utiliza dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SINISA), ano-base 2024, publicados pelo Ministério das Cidades . As informações sobre o reajuste tarifário são baseadas em decisão da Ager-MT e foram amplamente noticiadas . As declarações do vice-prefeito foram publicadas em veículo de imprensa e são de responsabilidade do declarante .
A notícia de opinião expõe um ponto de vista crítico sobre os fatos apurados, mas todos os fatos mencionados são verificáveis e estão devidamente referenciados.
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