Goiânia, 1987 – O que começou como um furto comum em um prédio abandonado se tornou o maior acidente radioativo do Brasil e um dos piores do mundo. A história do Césio-137, que completa 37 anos de terror silencioso, ainda ecoa nos hospitais, nos tribunais e na memória de quem viveu o pesadelo dourado.

Tudo começou em setembro, quando dois catadores de materiais recicláveis, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, invadiram o Instituto Goiano de Radioterapia, que estava desativado. Eles encontraram um aparelho de radioterapia abandonado e, sem saber o que era, desmontaram a cápsula que guardava o cloreto de césio-137. Encantados com o pó azul que brilhava no escuro, venderam o material para o dono de um ferro-velho, Devair Alves Ferreira.

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Imagem da cápsula
Imagem da cápsula

A festa macabra do pó que brilha

O que se seguiu foi uma sucessão de erros humanos digna de filme de suspense. No ferro-velho, familiares e amigos manusearam o pó luminoso, passaram nas mãos, no corpo e até em uma criança. Espalharam a morte em forma de partículas invisíveis pela casa, pelo quintal, pelas roupas e pelos alimentos. Durante dias, ninguém sabia que o "brilho mágico" era, na verdade, radiação emitindo doenças e mortes.

Os primeiros sintomas foram confundidos com virose: náuseas, tonturas, diarreia. Mas quando a filha do dono do ferro-velho, Leide das Neves, de apenas 6 anos, começou a apresentar queimaduras graves e hemorragias, a família procurou ajuda. O pânico só se instalou de vez quando uma médica, notando a contaminação generalizada dos pacientes, acionou as autoridades no dia 28 de setembro.

O rastro de dor e abandono

O desfecho foi arrasador: 249 pessoas contaminadas, 4 mortes confirmadas – incluindo a pequena Leide, de 6 anos, e a dona de casa Maria Gabriela Ferreira, que chegou a ingerir o pó acreditando ser "areia abençoada". A cidade entrou em estado de emergência. Mais de 130 mil pessoas foram monitoradas, centenas de casas demolidas, toneladas de terra removidas e armazenadas em depósitos nucleares improvisados.

As imagens das vítimas com feridas expostas, carecas e isoladas em tendas hospitalares chocaram o mundo. O Centro-Oeste virou uma zona de exclusão temporária, e Goiânia ganhou um apelido cruel: "a Hiroshima brasileira".

O abandono dos sobreviventes

Hoje, quem sobreviveu carrega marcas que vão além do corpo. Muitos desenvolveram câncer, depressão e foram rejeitados pela própria sociedade. O medo de "contaminar" outros gerou demissões, divórcios e suicídios. O Estado brasileiro, após um acordo firmado na década de 1990, paga pensões irrisórias – muitas vezes atrasadas ou negadas – para cerca de 30 sobreviventes diretos.

O ferro-velho foi demolido. A área segue isolada e vigiada 24 horas por dia, com placas que alertam: "Perigo – Material Radioativo". O cárcere do césio-137 está guardado em depósitos especiais em Abadia de Goiás, onde deverá permanecer por mais 150 anos, até que sua radiação se torne inofensiva.

O que nunca nos contaram

Especialistas apontam que o maior legado do acidente foi a ausência de protocolos: hospitais demoraram a identificar a radiação, autoridades ignoraram avisos e a população nunca foi preparada para lidar com tecnologia nuclear. Até hoje, o Brasil não possui um plano de resposta rápida para acidentes radiológicos.

E por fim, a maior ironia: o aparelho que causou o desastre havia sido comprado usado dos Estados Unidos, sem qualquer manual de segurança em português. E ficou abandonado num prédio sem cerca, sem tranca, sem fiscalização.

O brilho que não apaga

Goiânia aprendeu da pior forma que o silêncio mata mais que a radiação. O Césio-137 virou símbolo da negligência, mas também da luta por memória e justiça. Toda vez que alguém brinca com "pó que brilha no escuro", um sobrevivente lembra: tem coisa que nunca mais apaga.

Girando News – Porque a verdade não tem meia-vida.

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Com informações do acervo da CNEN, da Comissão de Direitos Humanos e relatos de vítimas do acidente de 1987.